1.  O Cristo Glorificado

Uma mensagem compreensível

O próprio primeiro verso do Apocalipse confirma o facto, de que o conteudo dêsse livro não constitui alegoria enigmática de acontecimentos futuros, mas sim  uma revelação do livro. A origem da sua mensagem  profética afirma-se claramente: "A Revelação de Jesus Cristo, que Deus LHE deu, para mostrar aos Seus servos coisas que devem ter lugar em breve. E Êle a enviou e a significou pelo Seu anjo ao Seu servo Joâo." (Apocalipse 1:1)

Ao pô-la por escrito, João quiz garantir que esta importante mensagem chegasse a toda a Igreja de Cristo. No verso 2, êle afirma que o que descreveu é um relato preciso da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo. Êle é portanto, simplesmente um mensageiro daquilo que o Próprio Deus deseja dizer à igreja, por intermédio de Jesus Cristo.

No verso 3 promete-se uma benção especial, para todo aquele que ler esta profecia e mantiver estas coisas fielmente no seu coração: "Abençoado é aquele que lê, e aqueles que ouvem as palavras desta profecia e guardam as coisas que nela estão escritas, porque o tempo está próximo."

Pedro declara tambem abertamente a importância da palavra profética:

"E assim, nós vimos e confirmamos, que o que os profetas disseram  aconteceu. E vós fareis bem dando toda a atenção a tudo quanto êles escreveram,  porque, como luzes iluminando cantos escuros, as suas palavras ajudam-nos a compreender muitas coisas, que de outra maneira seriam difíceis de compreender. E quando pensardes na maravilhosa verdade das palavras dos profetas, então a luz nascerá nas vossas almas,  e Cristo, a Estrêla da Manhã,  brilhará nos vossos corações. Pois nenhuma profecia contida nas Escrituras foi alguma vez engendrada pelos próprios profetas. Foi o Espírito Santo dentro dêsses bons homens, Quem lhes deu verdadeiras mensagens de Deus.'' (2 Pedro 1:19-21 LB)

A lâmpada profética tem brilhado durante todos os tempos, e iluminado o caminho de peregrinos devotos, num mundo de escuridâo. Abraão viveu em tendas numa terra estranha. E, porque tinha uma visão de uma cidade cujo construtor é Deus, (Hebreus 11:10) viveu pela fé, como tendo a sua cidadania no Céu – na Nova Jerusalem.

Cristo e a Sua Igreja

A mensagem do Apocalipse, provem do Deus Triune. Ela inclui cartas dirigidas às sete igrejas da Ásia Menor. Uma vez que o número sete é o número bíblico que significa plenitude, e é repetido muitas vezes no livro, deduz-se que esta mensagem é dirigida à Igreja de Cristo de todos os tempos.

A excelência do Senhor Jesus como  cabeça da igreja, é exaltada de uma maneira sentida e elevada. Êle é Aquele que nos amou e lavou dos nossos pecados com o Seu próprio sangue. Êle é o Alfa e o Omega. Alfa, quere dizer que Êle é o princípio da criação de Deus e do plano de salvação para o homem. Como  Ómega, Êle  é o fim  da dispensação da igreja, e Aquele  através de  Quem obteremos entrada na glória eterna.

João vê Jesus, como Êle se nos mostra durante a presente dispensação da igreja – movendo-se entre os candelabros de ouro, sempre  intimamente  consciente  de tudo que se passa. As várias congregações  são representadas pelos candelabros, pois elas são os vasos em que o óleo do Espírito Santo é derramado. Quando os membros das igrejas estão cheios do Espírito Santo, tornam-se luzes brilhantes, num mundo de escuridão.   

Jesus é retratado no Seu glorioso aparato: Está vestido com um manto até aos pés e cingido com uma faixa de ouro, comprovadora da Sua dignidade real e sacerdotal. O Seu cabelo, branco como a lã,  simboliza a Sua sabedoria, enquanto que os olhos, como chama de fôgo, dão testemunho  do Seu julgamento incisivo e da Sua omnisciência. Nada se pode esconder da Sua vista. Os Seus pés, como latão fino a arder numa fornalha, simbolizam a Sua absoluta pureza e santidade. Por causa dos nossos pecados Êle passou pelo fôgo dos julgamentos de Deus, assim como passou por Gethsemane, pelo Calvário e pela cova, sem apreensão ou hesitação.Pensemos no enorme sacrifício que Êle fez ao percorrer êsse caminho!  Deixou a glória do céu para ser  rejeitado na terra,  desprezado,  troçado, espancado e executado com criminosos:

"A Sua face e todo o Seu  parecer estavam mais deformados  que os de qualquer outro e o Seu corpo mais deformado que os dos filhos dos homems" (Isaías 52:14). "Era desprezado e rejeitado pelos homens; homem de dôres e conhecedor do sofrimento: E nós como que escondemos DÊLE as nossas caras; desprezámo-LO, e não Lhe démos valor algum. Verdadeiramente, ÊLE tomou sôbre Si as nosss enfermidades e as nossas dôres; no entanto, considerámo-LO derrotado, ferido de Deus e aflito. Mas ÊLE foi ferido pelas nossas transgressões, foi moido pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sôbre ÊLE; e pelas suas vergastadas somos curados." (Isaías 53:3-5)

Paulo escreve sôbre a morte humilhante que Cristo sofreu pelos nossos pecados, mas tambem se refere à glória indiscritível que O acolheu no Céu:

"Cristo Jesus..., que, sendo na forma de Deus, não considerou uzurpação ser igual a Deus; mas fez-se sem reputação e tomou sôbre Si a forma de servo, fazendo-se à semelhança dos homens. E, encontrando-se semelhante  ao homem, humilhou-se a Si mesmo e tornou-se obediente até à morte, a própria morte na cruz. Pelo que, Deus tambem o exaltou altamente, dando-LHE um nome acima de todos os nomes: Para que, ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, das coisas do céu, das coisas da terra  e das coisas debaixo da terra; e que toda a lingua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai." (Filipenses, 2:6-11 KJV)

É o Cristo glorificado que João vê no meio dos candelabros. Quando estava a ser julgado, Êle não fez qualquer esfôrço em Sua defesa, não abriu a bôca (Isaías 53:7). Mas agora, fala com  voz grandiosa como o som de muitas águas. Ninguem pode disputar, argumentar contra, ou desafiar a Sua autoridade. As Suas palavras são como espada afiada saindo da Sua bôca – ela causa divisão, justifica e julga. A Sua aparência, é como o Sol, que dissipa toda a escuridão e as Suas testemunhas especiais são como estrêlas brilhantes na Sua mão direita. Elas devem fazer brilhar a luz do Sol da Justiça sôbre um mundo coberto de negrume. Os Seus pés são como latão fulgindo numa fornalha. Da mesma maneira, os Seus discípulos devem aspirar a um caminhar santo, na vida, e ser purificados pelo sofrimento.

Jesus Cristo é Aquele à volta do Qual todo o livro revolve. O povo reagiu à Sua pessoa de maneira diferente desde o princípio. Pouco depois do Seu nascimento, Simeão disse a Maria: "Olha, esta Criança está destinada a trazer a queda e a levantar muitos em Israel, e a constituir sinal contra o qual se falará" (Lucas 2:34). Durante os passados 2 000 anos, Jesus tem de facto levantado milhões de pessoas para uma nova vida. A queda de muitos outros aconteceu, por causa de O terem rejeitado e de amarem mais a escuridão que a luz.

De acôrdo com estas duas características, o livro do Apocalipse  mostra-nos Jesus Cristo como Redentor e como Juiz. Primeiramente, Êle é-nos revelado como Redentor e Cabeça da Igreja, movendo-se no meio dos candelabros. Dirige palavras de confôrto aos Seus servos fiéis, repreende os teimosos e chama ao arrependimento os membros da igreja não-salvos, que apenas mostram uma aparência de santidade. A glorificação da Igreja e a eterna posição de Jesus como Rei, estão intimamente relacionados com o Seu trabalho redentor.    

Em segundo lugar, Êle é-nos revelado como juiz, que exerce julgamento sôbre todos quantos O rejeitam. Até ao último momento, Êle oferece-lhes a oportunidade de O aceitarem como Redentor. E, finalmente, quando a plenitude do tempo é chegada, passa julgamento sôbre todos os seguidores do Anticristo e do Falso Profeta, com a espada que sai da Sua bôca.

Em justiça, em glorificação e em julgamento, o factor determinante é o relacionamento que cada pessoa tem com Cristo: Por Êle ou contra Êle. Isto é o que leva João a afirmar em Apocalipse 19:10, quando diz que "O testemunho de Jesus é o espírito de profecia."  Êle é, ou o Salvador da nossa alma, ou o juiz da nossa alma. Na grande tribulação, o mundo rejeitador de Cristo estará a ser juilgado, e terá uma última oportunidade de se arrepender e aceitar Jesus como Salvador.

Sequência dos acontecimentos proféticos

Jesus glorificado dirige-se directamente a João, mas  o apóstolo está tão cheio de mêdo e de humildade, que tomba como morto a seus pés.  Pouco antes dos julgamentos destrutivos  dos tempos do fim serem anunciados,  o Senhor põe uma mão confortadora sôbre o Seu servo e diz-lhe: "Não tenhas mêdo."

ÊLE venceu o último inimigo, a morte, e, portanto, todo aquele que verdadeiramente LHE pertença, já não tem motivo para ter mêdo: Êle.... não entrará em condenação, "pois já passou da morte para a vida." (João 5:24) 

Em Apocalipse 1:19, João é instruido no sentido de escrever as coisas que viu, as coisas que são e as coisas que vão ser daqui em diante. A forma como Jesus deu êste comando, constitui chave importante para a compreensão do livro do Apocalipse, uma vez que destingue três séries de acontecimentos:

·      Primeiro, João devia registar as coisas que viu, isto é, Jesus glorificado, no meio dos sete candelabros.

·      Em segundo  lugar,  êle  devia  registar  as coisas que são. O ano de 95 AD, quando João recebeu as visões de Patmos,  estava dentro  da  dispensação da Igreja. Presentemente, ainda nos encontramos na mesma dispensação. João viveu nos primeiros anos dela, enquanto que nós estamos muito perto do fim da mesma.

·      Em terceiro lugar, a parte principal da mensagem do Apocalipse trata das coisas que vão ser daqui em diante, e inclui tudo quanto vai acontecer depois da consumação da era da igreja.

Vendo as coisas sob êste ângulo, é evidente que o livro do Apocalipse foi escrito em ordem cronológica, relativamente às claramente definidas categorias de acontecimentos a seguir mencionadas:

·      Cristo glorificado, no capítulo 1.

·      Uma revisão da dispensa da Igreja na Terra, nos capítulos 2 e 3.

·      A visão celestial, apresentando tambem a Igreja glorificada, capítulos 4 e 5.

·      Os sete anos de tribulação, nos capítulos 6 a 19:10.

·      A  segunda vinda de Jesus, no capítulo 19:11-21.

·      Reino de paz de mil anos, no capítulo 20:1-6.

·      Julgamento final,  no capítulo 20:7-15; e

·      Novo Céu e a nova Terra, nos capítulos 21 e 22.

Embora a ordem cronológica da descrição dos principais períodos proféticos, que se seguem uns aos outros, seja estrictamente seguida, os acontecimentos relacionados com o periodo da tribulação, (capítulos 6 a 19) são discutidos assunto por assunto, e não necessàriamente por ordem cronológica. Os acontecimentos de Apocalipse 6 dão-se durante a semana inteira (periodo de sete anos). O cavalo branco, (o falso Principe da Paz) é revelado ao princípio da tribulação, enquanto que o cavalo vermelho (guerra), o cavalo preto (fome), e o cavalo amarelo, (morte), aparecem na segunda metade da semana. Os mártires do quinto sêlo são reunidos durante a tribulação, enquanto que os tremendos sinais cósmicos e perturbações descritos no sexto sêlo, têm lugar no final da grande tribulação. Os Judeus messiânicos de Apocalipse 7:1-8, são salvos cêdo no período da tribulação, enquanto que os mártires cristãos de Apocalipse 7:9-17 são apanhados principalmente durante a segunda metade da semana. Os acontecimentos do meio da tribulação, são relatados em Apocalipse 12 e 13. A Babilónia mística de Apocalipse 17 (a falsa igreja mundial), aparece em cena durante a primeira metade da semana-ano. Ela é abandonada e morta depois de 3 anos e meio, enquanto que a destruição da Babilónia comercial (a cidade descrita em Apocalipse 18) tem lugar depois de outros 3 anos e meio, no final da grande tribulação.

Aqueles que explicam e interpretam a Bíblia de maneira literal e dispensalista, são chamados milenialistas. A palavra tem origem no têrmo latino para mil, e refere-se portanto a pessoas que acreditam num reino milenário literal de paz na terra, que começará depois do regresso de Cristo. Porque esperam a vinda de Cristo antes do milénio, são tambem chamados  pre-milenialistas.

Os milenialistas honram o significado literal das Escrituras, excepto quando o contexto mostra claramente que certa porção deve ser interpretada simbòlicamente. Um exemplo disto é a descrição do dragão com sete cabeças, que, de acôrdo com a Bíblia, se refere ao Diabo.

Quando a Bíblia fala de Israel, de Jerusalem, da grande tribulação, do Anticristo,da batalha de Armagedon, ou do amarrar (ou prender totalmente) do Diabo a seguir ao regresso de Cristo, não há qualquer razão para interpretar êstes conceitos alegòricamente, dando-lhes outros significados à vontade de cada um. A regra de ouro é esta: quando o simples sentido da palavra faz sentido comum, não procurar outro sentido

Infelizmente, há muitas pessoas que alteram o significado básico das afirmações bíblicas espiritualizando-as. De acôrdo com êste procedimento, rejeitam o literal reino de paz, que se seguirá à segunda vinda de Cristo. São chamados amilenialistas e afirmam que os mil anos de paz são apenas um reino espiritual que existe na terra durante a presente dispensação da Igreja. Consequentemente,  o período não é de mil anos, e o Diabo não é amarrado por completo, sendo apenas prêso a uma  corrente comprida, que lhe permite de modo significativo mover-se e levar a cabo os danos que planeia. Há tambem pessoas,  que acreditam que a igreja melhorará o mundo pelo seu próprio esfôrço e conduzirá eventualmente ao milénio. Segundo estas pessoas, Cristo só voltará depois da dispensação da igreja. Os que assim pensam, são chamados post-milenialistas.

Aínda mais, os amilenialistas não acreditam na restauração física e espiritual do povo de Israel de harmonia com as profecias do Velho Testamento. De acôrdo com a teologia de substituição, consideram a igreja como o novo Israel. Tambem negam o arrebatamento e, por meio da espiritualização, libertam-se de várias afirmações concretas da Bíblia. Na sua opinião, a mensagem profética do Apocalipse já náo é válida em grande parte, devido ao que chamam o 'seu cumprimento histórico'. Negam tambem a cronologia dos acontecimentos, segundo dizem porque o reino de paz de mil anos descrito em Apocalipse 20, é tido como parte integral da actual dispensa da Igreja.

Êste ponto de vista prejudica a credibilidade da palavra profética, e leva as pessoas a desprezar ou descurar a preparação necessária para enfrentar a vinda de Cristo. Êles inclinam-se a ignorar os sinais dos tempos, à medida que se desenrolam à nossa frente. E o resultado inevitável é os Cristãos entregarem-se a um modo de vida materialista, que se transforma gradualmente numa compreensão humanística e mundana da realidade.

E, dentro desta perspetiva secular, as relações humanas, o amor fraterno e toda a espécie de problemas sociais, morais, de ética e políticos, dominam o seu pensamento, enquanto que o relacionamento homem-Deus é relegado apenas para pano de fundo. Nestas circunstâncias, a visão celestial e a espectativa da próxima vinda do Noivo, entram ràpidamente no esquecimento.    

O milenialismo, por outro lado, dá grande importância às verdades básicas das Escrituras e tende a  desenvolver um conceito claro do plano de Deus para os acontecimentos futuros. Os Cristãos que mantêm êste ponto de vista, estão dispostos a interpretar os acontecimentos correntes  do mundo de hoje, à luz da palavra profética e, portanto, possuem a habilidade espiritual de ver a marca Bíblica em tais acontecimentos. Evitam a armadilha amilenialista da complacência – que nasce da auto-imposta crença de que o Diabo está prêso, e que portanto podemos recostar-nos nas nossas cadeiras e gozar os benefícios do reino – e consideram-se como estrangeiros num  mundo que "vive na maldade" (1 João 5:19 KJV). Dentro desta orientação, é de esperar uma grande intensificação da luta entre os poderes da luz e das trevas.

Os pre-milenialistas têm consciência da hora solene em que vivemos, e estão convencidos de que a dispensa da Igreja está a avançar a grande velocidade a caminho do seu destino final. E, nestas circunstâncias, utilizam o seu tempo o melhor possivel, para avisar outros para que preparem as suas vidas para se encontrarem com o Senhor. Desta maneira, mostram grande zêlo evangelístico, pois o tempo para a aplicação da Grande Comissâo em breve terminará. Aínda mais, a palavra profética insiste com as pessoas para que ordenem contìnuamente as suas vidas, de harmonia com as normas Bíblicas de santidade, como preparativo para o regresso de Jesus. Êles anseiam tambem pela vinda do Noivo Celestial, que os levará às mansões celestiais que lhes foi preparar.

No caso de o leitor não ser milenialista, por favor não perca interêsse neste livro. Nós não discutimos nêle doutrinas teológicas, mas apenas as verdades básicas que estão registadas para o leitor e para nós no livro do Apocalipse. Como o nome indica, o Apocalipse revela o futuro, de forma a podermos saber o que esperar dêle.

O simbolismo ocasional e algo estranho presente no livro, pode ser atribuido ao facto de que João possuia apenas a terminologia arcaica do primeiro século para relatar as suas visões, e consequentemente encontrava dificuldade em descrever a tecnologia moderna e as guerras nucleares que lhe eram reveladas.    

Convido o leitor a acompanhar-nos numa viagem de descoberta por êste vasto tesouro do conhecimento dos tempos do fim. Encontraremos durante ela, riquezas indescritíveis do amor e graça de Cristo, mas tambem avisos urgentes sôbre os julgamentos terríveis que esperam todos aqueles que não se viraram  para o Deus Vivo e Seu Filho Jesus Cristo, para obterem a sua salvação.